terça-feira, 11 de outubro de 2016

Durou só o tempo de um beijo













Foi um beijo quente,
Reticente...
Me deixou ausente, 
Tirou meus pés do chão.
Assalto a mão desarmada,
Eu me entreguei de mão beijada
Na palma da sua mão.
Foi um beijo de novela,
Fim de um filme de amor.
Foi só "kiss and say goodbye",
Mas o sentimento não se esvai.
Beijo cheio de sensações
Que prometeu não deixar saudade.
Durou só o tempo de um beijo,
Mas para mim soou
Eternidade...

                                    (Alcides Vieira)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ameixas verdes e amarelas


















As hienas alienadas
Riem da situação:
Entre togas, becas e botas,
Raposas farsantes, magistradas,
Ferem a Constituição.
O poeta desanima,
Não consegue nenhuma rima.
Sabe que a saída é pela esquerda.
“Com a chave na mão
Quer abrir a porta,
Não existe porta”
Mesmo assim ele tenta,
Passa perto das hienas
Que depois de caírem em si
Dão um sorriso amarelo.
Mas é tardio o momento
Para arrependimento.
As botas avançam depressa
Para conterem manifestações.
Cala boca já morreu
Mesmo assim restou o peito
E o poeta lembra uma rima
Que agrada aos homens brancos
E as hienas burras não entendem;
“Ameixas
Ame-as
Ou deixe-as”.

                                                  (Alcides Vieira)

sábado, 9 de julho de 2016

Procurando assombração






















É tamanho o silêncio que se faz,
Que nem sozinho eu falo mais.
Nem seu nome eu pronuncio
Andando na sua rua. 
No chão as folhas caídas
Sem esperanças de outra estação. 
As memórias são distorcidas:
Beijo, abraço, aperto de mãos
Amputadas pelo tempo.
Eu sei que plantei o vento,
Mas nem tempestade posso colher.
No deserto da sua porta
Espero seu rosto aparecer.
Só que não, nada acontece;
Tudo é vazio e sem direção.
Sou como um fantasma no cio
Procurando assombração...

(Alcides Vieira)



sábado, 4 de junho de 2016

Perdoa-me!






















Perdoa-me se é de manhã
E não preparei tua marmita.
É que à noite mordi a maçã
E vi toda a mentira que habita
Num paraíso plantado às pressas
Por quem planta provas de um crime.
Perdoa se ganhei ou perdi alguns quilos,
Perdoa pela minha cor,
Mas isso é o que menos importa.
Perdoa-me por querer assado
E por nunca querer assim.
Perdoa se atrás da porta
Eu sou a dona de mim.
Perdoa-me por ser teu fetiche,
O teu sonho de consumo.
Do teu desejo o supra-sumo.
Perdoa-me se quando me olhas
Eu viro as costas e sumo!
Perdoa-me pelas minhas curvas,
Por meu vestido decotado.
Perdoa-me, embaixo da minissaia
O sinal para você está fechado.
Perdoa por não ser teu objeto
E nem fazer o que você quer.
Perdoa-me por ser tão forte,
Perdoa-me por ser Mulher!

                                        (Alcides Vieira)

PS. A aquarela é um presente da amiga artista Karine Barbosa, inspirada no poema Perdoa-me. 

domingo, 3 de abril de 2016

Outra noite, a mesma coisa











Outra noite,
Outra chuva,
Outra mágoa.
Lágrima inconformada
Abrindo caminho em silêncio. 
Outro gole de saliva
Escorre no nó da garganta. 
Tudo é novo, porque é outro dia,
Mas o velho coração
Bate pela mesma pessoa
Que num velho tempo
Era sua razão de ser;
Hoje é só lembrança
Sem esperança
De um dia
Se fazer esquecer.

                              (Alcides Vieira)



quarta-feira, 9 de março de 2016

Grandes rosas delicadas















Grandes rosas delicadas
Tens para me oferecer.
São vermelhas imaculadas,
Têm pétalas aveludadas
E perfume de entorpecer.

Grandes rosas delicadas
Colhidas de um belo jardim
Cujas flores bem cuidadas
Foram todas preparadas
Para serem entregues a mim. 

Em você vejo rosas delicadas,
Pétalas abertas, alguns botões
E espinhos que ferem os dedos
Porque rosas delicadas
Também dão seus arranhões.

                                                                  (Alcides Vieira)



sábado, 20 de fevereiro de 2016

Estrela Cadente















É noite, tudo é inércia
Não tem lobo a uivar
E nem cães aos ladrões a ladrar. 
É noite, tudo se aquieta
Não tem gato pardo no telhado
Nem o vigia na motocicleta. 
É noite, tudo se sabe
Mas aqui dentro de mim não cabe
Essa falta de movimento. 
É noite e a lua minguante
Não tem proteção do santo,
Muito menos do dragão
É noite, nem uma folha vai ao chão
E eu sinto meu coração
Como se fosse um ilhéu.
É noite, mas eu vejo a esperança:
Na constelação de virgem
Uma estrela caiu do  céu. 
                                                   (Alcides Vieira)




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